PRONOMES RELATIVOS: TUDO QUE PRECISA SABER

1. Introdução: Definição e Função

O pronome relativo é um elemento fundamental para garantir a coesão e a clareza dos textos em língua portuguesa. Ele tem a função de retomar um termo anterior, chamado de antecedente, e ligar duas orações, evitando a repetição desnecessária de palavras e tornando o texto mais fluido. 

Em outras palavras, o pronome relativo atua como um elo de ligação entre ideias, substituindo um termo já mencionado — geralmente um substantivo ou equivalente — e introduzindo uma nova oração que serve para caracterizar ou especificar esse termo.

De acordo com Evanildo Bechara (2015), o pronome relativo “estabelece uma relação de dependência entre duas orações, substituindo um termo anterior e evitando repetições desnecessárias”.

Assim, ele contribui para a harmonia do texto, promovendo continuidade e clareza na construção das frases.

O pronome relativo pode retomar diversos tipos de palavras — substantivos, pronomes, numerais, advérbios, verbos no infinitivo e até mesmo orações inteiras.

Veja como isso acontece em diferentes situações:

Quando o antecedente é um substantivo, o pronome relativo substitui o termo repetido e liga as duas orações. Observe: 

“Comprei um carro. O carro é econômico.” 

Para evitar a repetição de “carro”, unimos as ideias: “Comprei um carro que é econômico.” Nesse caso, o pronome que retoma “carro” e introduz uma oração que o caracteriza.

Quando o antecedente é um pronome substantivo, o funcionamento é o mesmo. Por exemplo: 

“Aquele é o professor. O professor me ajudou muito.” 

Podemos dizer: “Aquele que me ajudou muito é o professor.” O pronome que retoma “aquele”, servindo como conector entre as duas ideias.

Se o antecedente for um numeral substantivo, o pronome relativo também é empregado para evitar repetições. Veja: 

“Três chegaram cedo. Os três estavam animados.” 

A união das orações resulta em: “Os três que chegaram cedo estavam animados.” Aqui, o pronome que retoma o numeral “três” e introduz uma oração que o especifica.

Quando o termo retomado é um advérbio de lugar, o pronome relativo usado é onde. Por exemplo: 

“Visitamos a cidade. Na cidade nasci.” 

Ao juntar as orações, temos: “Visitamos a cidade onde nasci.” O pronome onde retoma “na cidade” e exerce a função de adjunto adverbial de lugar dentro da nova oração.

Em outros casos, o pronome relativo pode retomar um verbo no infinitivo. Veja o exemplo: 

“Viver é um desafio. 

Esse desafio exige coragem.” Podemos dizer: “Viver, que é um desafio, exige coragem.” Nesse caso, o pronome que retoma o verbo “viver”, funcionando como um substantivo abstrato.

Por fim, há situações em que o antecedente é uma oração inteira. Nesse caso, utiliza-se geralmente a forma composta o que. Por exemplo: 

“Estudar para concurso é importante. Isso requer disciplina.” 

As orações podem ser unidas assim: “Estudar para concurso, o que requer disciplina, é importante.” Aqui, o pronome relativo o que retoma toda a ideia anterior, referindo-se a uma ação completa e não apenas a uma palavra.

Do ponto de vista sintático, o pronome relativo introduz uma oração subordinada adjetiva, que pode ser restritiva ou explicativa.

A oração restritiva limita o sentido do termo antecedente, especificando-o. Por exemplo: 

“O aluno que estuda passa no concurso.” 

Nem todos os alunos passam, apenas aquele que estuda.

Já a oração explicativa acrescenta uma informação adicional, geralmente separada por vírgulas, sem restringir o sentido do termo anterior. Exemplo:

 “O aluno, que é muito dedicado, passou no concurso.” 

Nesse caso, todos os alunos são dedicados, e a oração apenas explica uma característica.

Um exemplo clássico de união de orações com pronome relativo é: 

“Estou lendo um livro. O livro é espetacular.” 

Podemos unir as ideias dizendo: “Estou lendo um livro que é espetacular.” O pronome que retoma o substantivo “livro”, unindo as duas orações em uma só.

A oração “que é espetacular” caracteriza o termo “livro”, funcionando como oração subordinada adjetiva restritiva. Assim, o uso do pronome relativo evita repetições desnecessárias, confere coesão ao texto e torna o período mais natural e harmonioso.

Esse conhecimento inicial já permite resolver muitas questões de prova. Veja alguns exemplos práticos. Observe:

FGV – 2025 – Prefeitura de Canaã dos Carajás – PA – Agente de Serviços de Culinária

Leia as frases a seguir.

Falei com Fátima e João. Fátima é minha irmã.

Junte as duas frases em uma só, com o auxílio de um pronome relativo.

A ) Falei com Fátima, que é minha irmã, e com João. 
B) Falei com João e com Fátima, que são meus irmãos. 
C) Falei com Fátima cuja é minha irmã e com João.  
D) Falei com Fátima e João, que é minha irmã.
E) Falei com João e Fátima, minha irmã. 

A alternativa correta é: “Falei com Fátima, que é minha irmã, e com João.” 

Nesse caso, o pronome que retoma o substantivo “Fátima”, introduzindo uma oração subordinada adjetiva explicativa, separada por vírgulas.

As demais opções estão incorretas por motivos diversos: uso inadequado do “cuja”, ambiguidade e ausência de pronome relativo. Vamos estudar isso melhor ao decorrer do curso.

IDESG – 2025 – Prefeitura de Cariacica – ES – Farmacêutico

No trecho “Aqueles que consumiam um quarto de porção”, o pronome “que” é classificado como:

A) Pronome relativo que retoma o termo “Aqueles” e introduz a oração subordinada adjetiva.
B) Pronome demonstrativo que enfatiza a ideia de quantidade mencionada.
C)  Pronome possessivo que indica relação de posse entre as partes.
D) Pronome pessoal que substitui os participantes do estudo.

Gabarito: letra A.

Aqui, o pronome que foi corretamente classificado como pronome relativo, pois retoma o pronome substantivo “aqueles” e introduz a oração subordinada adjetiva restritiva “que consumiam um quarto de porção”. 

As demais alternativas estão incorretas por atribuirem ao “que” classificações diferentes, como pronome demonstrativo, possessivo ou pessoal — o que não se aplica ao contexto.

Em resumo, o pronome relativo é essencial para a coesão textual e para a clareza das ideias. Ele retoma termos já mencionados, une orações de modo harmônico e evita repetições. 

Além disso, exerce papel importante na estrutura sintática, introduzindo orações subordinadas adjetivas que podem restringir ou explicar o termo antecedente. 

Com essa base teórica e exemplos práticos, é possível compreender como o uso dos pronomes relativos é cobrado em provas e aplicá-los corretamente na produção textual.

2. observações que você precisa saber sobre os pronomes relativos

2.1 O Uso da Preposição com o Pronome Relativo

Um dos pontos mais relevantes no estudo dos pronomes relativos — e também um dos mais cobrados em provas de concursos públicos — é o emprego correto da preposição antes do pronome relativo

Esse aspecto está diretamente relacionado à regência verbal e nominal, ou seja, à relação de dependência entre o verbo (ou o nome) e o termo que o completa.

A regra é bastante objetiva: 

“se um verbo ou um nome da oração subordinada adjetiva exigir a presença de uma preposição, esta ficará obrigatoriamente antes do pronome relativo”.
A Gramática para concursos públicos
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A ausência dessa preposição constitui um erro de regência e compromete a correção gramatical do período.

Vejamos o primeiro exemplo: 

O filho, pelo qual a mãe tinha amor, era bom. 

Nesse caso, a locução verbal ter amor exige a preposição por — dizemos ter amor por alguém (o filho-retomado pelo pronome relativo “o qual”). Assim, o pronome relativo o qual vem acompanhado da preposição exigida, formando pelo(por + o) qual. Portanto, a frase está correta. 

Por outro lado, se disséssemos O filho que a mãe tinha amor, embora possua uma semântica parecida, a estrutura estaria incorreta, pois o verbo perderia a preposição que lhe é obrigatória.

O mesmo raciocínio se aplica ao verbo precisar, que também exige a preposição de. Por isso, a frase correta é Este é o carro de que precisamos, e não Este é o carro que precisamos. O pronome relativo que, por si só, não dispensa a preposição exigida pelo verbo — ele apenas herda a regência já existente.

Outro exemplo bastante comum é o verbo gostar. Como esse verbo exige a preposição de, devemos dizer As pessoas de quem gosto são sinceras, e não As pessoas que gosto são sinceras. O pronome quem é o termo que retoma o antecedente pessoas e, por essa razão, precisa vir acompanhado da preposição exigida pelo verbo.

O mesmo ocorre com o verbo lembrar-se, que é pronominal e também exige a preposição de. Assim, a forma correta é O dia de que me lembro com carinho foi maravilhoso, e não O dia que me lembro com carinho. Nesse exemplo, a preposição de é obrigatória porque o verbo lembrar-se não pode ser usado sem ela.

Além dos verbos, há nomes que também exigem preposição, e o mesmo princípio se aplica. Por exemplo: 

A cidade na qual nasci é acolhedora. 

O verbo nascer exige a preposição em (nascer em algum lugar), e por isso ela é mantida antes do pronome relativo a qual, formando na (em+a) qual

Na linguagem cotidiana, especialmente na oralidade, é comum que as pessoas omitam essa preposição: 

O amigo que confio, por exemplo. 

Embora soe natural, a forma está incorreta segundo a norma-padrão, pois o verbo confiar exige a preposição em. Assim, a forma correta é O amigo em quem confio.

Essa omissão ocorre por uma tendência natural da fala em buscar fluidez e economia linguística, mas deve ser evitada na escrita formal e em contextos acadêmicos, jurídicos ou profissionais.

Além disso, Bechara (2015, p. 273) explica: “Ocorre, por vezes, a omissão da preposição que pertence ao relativo, em virtude de já ter o seu antecedente a mesma preposição.”

Um exemplo clássico é:

 “Você só gosta das coisas que não deve (gostar).”

A forma rigorosamente correta seria: “Você só gosta das coisas de que não deve (gostar)”, mas a preposição de é omitida porque já está presente em “das coisas”. Esse processo é compreensível dentro da dinâmica da língua, mas deve ser evitado em textos que exigem correção formal.

Em conclusão, o uso da preposição com o pronome relativo é uma questão de observância da regência verbal ou nominal. O pronome relativo não cria uma nova relação sintática; ele apenas mantém a que já existe

Por isso, dominar esse ponto é fundamental para quem deseja escrever com correção, clareza e elegância, além de ser indispensável para o sucesso em provas de Língua Portuguesa, concursos e redações formais.

2.2 Uso pleonástico de pronome oblíquo após o pronome relativo

Na linguagem coloquial, é comum encontrarmos construções que apresentam o uso pleonástico de um pronome oblíquo átono (como o, a, os, as, lhe, lhes) ou tônico (como ele, ela, eles, elas) logo após um pronome relativo

Essa construção é chamada de uso pleonástico do pronome oblíquo após o relativo e, embora apareça com frequência na fala cotidiana, não está de acordo com a norma culta da língua portuguesa.

O termo pleonástico significa redundante, isto é, algo repetido desnecessariamente. No caso em questão, a redundância ocorre porque o pronome relativo já tem a função de retomar o termo antecedente

Dessa forma, quando o falante acrescenta outro pronome que cumpre a mesma função, acaba repetindo uma informação que já está presente na estrutura da oração.

Veja o exemplo:


Este é o livro que pretendemos comprá-lo.
Este é o livro que pretendemos comprar.

Na frase incorreta, o pronome “lo” retoma o substantivo “livro”, mas isso é desnecessário, pois o pronome relativo “que” já faz essa retomada. 

Assim, ocorre uma duplicação de função, o que torna a construção gramaticalmente incorreta. A forma correta é simplesmente “Este é o livro que pretendemos comprar”, pois o “que” já exerce o papel de ligar as orações e substituir o termo “livro”.

Outro exemplo:


A prova é o meio de resolução de conflito, da qual o juiz irá extrair certos juízos dela.
A prova é o meio de resolução de conflito, da qual o juiz irá extrair certos juízos.

Nesse caso, o pronome “dela” também é redundante, já que o pronome relativo “da qual” cumpre a função de retomar o termo “prova”. A repetição do pronome oblíquo cria uma estrutura incorreta sob o ponto de vista da norma culta.

Observe ainda outro exemplo para fixar a ideia:


O filme que assisti a ele é emocionante.
O filme a que assisti é emocionante.

Na forma inadequada, o pronome “ele” foi usado para retomar o termo “filme”, mas o pronome relativo “a que” já cumpre essa função. Assim, o uso de “ele” é desnecessário e deve ser eliminado.

Portanto, o uso pleonástico de pronomes oblíquos após pronomes relativos é considerado gramaticalmente incorreto, devendo ser evitado especialmente em contextos formais, como redações, textos acadêmicos e provas. 

É importante lembrar que o pronome relativo, por si só, já substitui o termo antecedente e estabelece a ligação entre as orações; acrescentar outro pronome com a mesma função representa uma repetição indevida, aceitável apenas em contextos de linguagem informal e oral, mas inadequada na norma padrão da língua portuguesa.

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