A crase com o pronome relativo “à qual” ou “às quais” é um caso que, embora menos comum, costuma causar dúvida em muitos candidatos.
De modo geral, a crase é o resultado da fusão da preposição “a” com outra vogal idêntica, normalmente o artigo definido feminino “a”.
Contudo, essa fusão também pode ocorrer quando a preposição “a” exigida por um verbo ou nome se encontra com o “a” inicial do pronome relativo “a qual” ou “as quais”. Assim, forma-se “à qual” ou “às quais”.
O que diferencia esse tipo de construção dos casos mais tradicionais é a posição do verbo regente na frase. Normalmente, o verbo que exige a preposição “a” vem antes do termo que a recebe. Por exemplo:
Obedeci à professora
Observe que na frase “Obedeci à professora”, o verbo “obedecer” exige a preposição “a” (obedecer a alguém). Como o termo seguinte é um substantivo feminino precedido de artigo (“a professora”), ocorre a fusão da preposição com o artigo, formando “à professora”.
Esse é o caso mais comum e fácil de identificar, pois o verbo e o termo regido aparecem na ordem direta: primeiro o verbo que pede a preposição, depois o substantivo que a recebe.
Já nas orações que contêm pronomes relativos, o verbo regente aparece depois do pronome, o que pode dificultar a percepção imediata da crase. No entanto, a regra continua exatamente a mesma: se o verbo exigir a preposição “a”, ela deve ser anteposta obrigatoriamente ao pronome relativo.
Quando esse pronome se inicia pela vogal “a”, ocorre a fusão das duas vogais idênticas — a da preposição e a do pronome — formando as expressões “à qual” (no singular) ou “às quais” (no plural). Por exemplo:
Essa é a razão à qual me referi.
Este exemplo ilustra perfeitamente a definição. O termo regente é o verbo “referir-se” (referir-se a algo), que aparece depois do pronome “a qual”. No entanto, a preposição exigida pelo verbo é anteposta ao pronome, resultando na fusão e no uso da crase com “à qual”.
A mesma regra se mantém no plural. Observe:
Foram indicadas várias medidas às quais precisamos nos adaptar.
Aqui, o verbo “adaptar-se” exige a preposição a, que é colocada antes do pronome relativo plural “quais”, formando “às quais”.
Observação: cuidado para não se confundir com o verbo anterior
Em orações mais longas, é comum o estudante se enganar quanto ao verbo que realmente exige a preposição “a”, aplicando (ou deixando de aplicar) a crase de forma equivocada.
Isso acontece porque, na presença de pronomes relativos, o verbo regente pode estar distante do pronome, dificultando a identificação da relação sintática entre eles.
Veja o exemplo:
“Conheci a diretora do setor à qual os funcionários se referiam com muito respeito.”
Nesse caso, muitos alunos pensam que a crase ocorre em razão do verbo “conheci”, que aparece antes na frase. No entanto, o verbo “conhecer” não exige preposição, logo, ele não tem relação com a ocorrência da crase.
O termo “à qual” está ligado, na verdade, ao verbo “referiam-se” (referir-se a alguém), que aparece depois do pronome relativo e é ele quem exige a preposição “a”.
Assim, a fusão ocorre entre a preposição exigida pelo verbo “referir-se” e o “a” que inicia o pronome relativo “a qual”, formando corretamente “à qual”.
Dessa forma, sempre identifique qual verbo exige a preposição “a”, pois ele pode aparecer distante do pronome relativo. É esse verbo — e não o anterior — que determina se haverá ou não crase.
Observe como isso é abordado em provas:
CESPE / CEBRASPE – 2025 – TRF – 6ª REGIÃO – Analista Judiciário – Área: Apoio Especializado – Especialidade: Engenharia Civil
O direito se constitui em esfera especial e profissional à qual se tem acesso apenas por meio de um curso universitário, enquanto a política permite acesso aos lugares de poder por meio de eleições e não exige, pois, nenhum preparo intelectual determinado.
A supressão do acento indicativo de crase empregado no vocábulo “à”, em “à qual” (segundo período do terceiro parágrafo), manteria a correção gramatical do texto.
Certo
Errado
Para resolver esse tipo de questão, o primeiro passo é identificar o verbo regente, isto é, o verbo que exige a preposição “a”.
No caso acima, o verbo que determina a necessidade da preposição é “ter acesso”, pois quem “tem acesso”, tem acesso a algo.
Esse detalhe é fundamental, porque o verbo que aparece antes — “se constitui” — não exige preposição e, portanto, não influencia na ocorrência da crase. Essa é uma das principais armadilhas que a banca costuma usar: colocar outro verbo mais próximo do termo para induzir o candidato ao erro.
Depois de identificar o verbo regente, observamos o termo que o completa, que neste caso é o pronome relativo “a qual”.
Como o verbo “ter acesso” exige a preposição “a” e o pronome relativo começa também com “a”, ocorre o encontro dessas duas vogais idênticas.
Pela norma culta, essa fusão deve ser indicada pelo acento grave, formando “à qual”.
Portanto, se retirássemos o acento e escrevêssemos “a qual”, a frase ficaria incorreta, pois perderia a marca que indica a fusão da preposição exigida pelo verbo com o “a” inicial do pronome relativo. Assim, a afirmativa de que a supressão do acento manteria a correção gramatical está errada.
Esse tipo de questão é típico do estilo CESPE/CEBRASPE. A banca costuma explorar situações em que o verbo regente aparece depois do pronome relativo, o que exige do candidato atenção à estrutura da frase.
O objetivo é verificar se o candidato consegue identificar corretamente qual verbo realmente exige a preposição, e não apenas se sabe decorar regras.
Uma boa estratégia para resolver rapidamente casos como esse é substituir o pronome relativo por um termo mais claro. Se reescrevermos a oração como “tem-se acesso a essa esfera especial e profissional”, percebemos facilmente a presença da preposição “a” antes de um termo feminino — exatamente o mesmo fenômeno que ocorre em “à qual”.
Em resumo, a forma correta é “à qual”, pois há fusão entre a preposição “a” exigida pelo verbo “ter acesso” e o “a” inicial do pronome relativo. A retirada do acento grave elimina a indicação dessa fusão e, portanto, viola a norma gramatical.
É justamente assim que as bancas costumam cobrar o tema: testando se o candidato entende a lógica da regência e reconhece o papel da preposição mesmo quando o verbo regente não aparece imediatamente antes do pronome relativo.
