
1. O QUE SÃO ORAÇÕES SUBORDINADAS ADJETIVAS?
As orações subordinadas adjetivas recebem esse nome porque exercem, dentro do período, a mesma função que um adjetivo ou um adjunto adnominal costuma exercer em relação a um substantivo.
Em termos simples, elas acrescentam uma característica, uma qualidade ou uma especificação a um nome presente na oração principal.
A grande diferença é que, como essas estruturas possuem verbo, são classificadas como orações, e não como termos isolados.
Essas orações são sempre introduzidas por pronomes relativos, como “que, o qual, quem, cujo, quanto, onde, como” e, para algumas bancas, o “quando”.
Mesmo quando aparecem separadas por vírgulas, travessões ou parênteses, continuam funcionando como modificadoras de um substantivo, mantendo o papel de adjunto adnominal, só que expresso por meio de uma oração.
Para compreender melhor essa equivalência, basta observar que uma oração subordinada adjetiva, muitas vezes, pode ser substituída por um simples adjetivo, por uma locução adjetiva ou por outro termo que caracterize o substantivo.
Veja um exemplo:
“O pesquisador, atento às mínimas alterações dos dados, revisa o relatório diariamente.”
Essa frase pode ser reescrita como:
“O pesquisador, que está atento às mínimas alterações dos dados, revisa o relatório diariamente.”
Em ambos os casos, a informação acrescenta uma qualidade ao termo “pesquisador”, funcionando como uma característica do mesmo.
O mesmo ocorre em:
“Ela comprou uma bolsa de couro resistente.”
Essa frase equivale a:
“Ela comprou uma bolsa que era de couro resistente.”
A locução adjetiva “de couro resistente” e a oração “que era de couro resistente” exercem exatamente a mesma função: caracterizam o substantivo “bolsa”.
Outro exemplo:
“As crianças felizes com a visita correram para o portão.”
Essa frase pode ser expressa como:
“As crianças, que estavam felizes com a visita, correram para o portão.”
Tanto o adjetivo “felizes” quanto a oração “que estavam felizes com a visita” qualificam “crianças” e desempenham o mesmo papel.
A ideia principal é entender que essas orações funcionam como adjetivos expandidos. Elas qualificam, esclarecem ou especificam um substantivo da oração principal, e fazem isso por meio de uma estrutura verbal.
Assim, para identificá-las, basta observar se a oração acrescenta alguma informação a um nome. Se a finalidade for caracterizar ou delimitar um substantivo, estaremos diante de uma oração subordinada adjetiva.
2 CLASSIFICAÇÃO DAS ORAÇÕES SUBORDINADAS ADJETIVAS
Ao estudar as orações subordinadas adjetivas, é importante compreender que elas se dividem em duas categorias principais: as explicativas e as restritivas.
A distinção entre essas duas espécies está diretamente relacionada ao uso da vírgula e ao efeito de sentido criado na frase.
De modo geral, as orações explicativas ampliam ou acrescentam uma informação sobre o termo antecedente, enquanto as orações restritivas delimitam, selecionam ou recortam apenas uma parte desse termo.
Agora, veremos detalhadamente o primeiro tipo: as orações subordinadas adjetivas restritivas.
2.1 Orações Subordinadas Adjetivas Restritivas
As orações subordinadas adjetivas restritivas têm a função de restringir o sentido do substantivo ao qual se referem. Ou seja, identificam apenas uma parte dentro de um conjunto maior.
Por isso, não aparecem separadas por vírgulas, pois a ausência de pontuação marca justamente essa ideia de “seleção”.
Em provas de concurso, é muito comum que esse tipo de oração seja introduzido pelo pronome relativo que, razão pela qual vamos utilizá-lo nos exemplos.
Veja o primeiro caso:
– Os funcionários que concluíram o treinamento foram promovidos.
Aqui, o termo “funcionários” representa um conjunto maior. No entanto, a promoção não se aplica a todos eles, e sim a uma parte específica: somente os que concluíram o treinamento receberam a promoção.
Os demais, que não fizeram o curso, obviamente ficaram de fora. Portanto, a oração “que concluíram o treinamento” restringe o grupo mencionado.
Outro exemplo claro:
– Comprei o livro que estava em promoção.
Do conjunto “livro”, não estou falando de qualquer um, mas especificamente daquele que estava em promoção.
A oração “que estava em promoção” seleciona um item dentro de um grupo maior. O sentido não é abrangente, mas sim delimitador. Isso mostra que não há pontuação porque a informação restringe — e não explica — o substantivo.
Mais um exemplo:
– As crianças que moram no interior chegaram mais cedo ao evento.
Aqui, não se trata de todas as crianças, mas apenas daquelas que moram no interior. As demais, que vêm de outras regiões, não estão incluídas nessa afirmação.
Assim, novamente, a oração “que moram no interior” desempenha o papel restritivo: define um grupo menor dentro de um universo maior.
Em todos esses casos, o que marca a restrição é justamente a função do pronome relativo aliado à ausência de vírgula.
A oração subordinada não acrescenta uma informação geral sobre o substantivo; ao contrário, seleciona apenas uma parte do conjunto total.
2.1.1 Observações
Antes de avançarmos para o estudo das orações subordinadas adjetivas explicativas, vale destacar algumas observações importantes sobre as orações subordinadas adjetivas restritivas, especialmente porque alguns casos costumam gerar dúvidas.
1) Distinção entre a oração adjetiva restritiva e a oração subordinada substantiva completiva nominal.
A primeira delas é a distinção entre a oração adjetiva restritiva e a oração subordinada substantiva completiva nominal, que, à primeira vista, podem parecer semelhantes, mas possuem naturezas completamente diferentes.
Uma forma simples de não confundir esses dois tipos é observar qual elemento inicia a oração subordinada:
- se for um pronome relativo, a oração tende a ser adjetiva;
- se for uma conjunção integrante, a oração será substantiva.
Veja o primeiro exemplo:
– A decisão de que todos participassem do projeto trouxe tranquilidade ao grupo.
Nesse caso, o termo “que” não retoma nenhum substantivo diretamente. Ele introduz a oração “que todos participassem do projeto”, que funciona como complemento do nome “decisão”.
Aqui, “que” é uma conjunção integrante, pois equivale a “a decisão disto”. Não há função sintática dentro da subordinada exercida por esse “que”.
Por isso, trata-se de uma oração subordinada substantiva completiva nominal, e não de uma oração adjetiva.
Agora observe um segundo exemplo:
– A decisão de que te falei ontem foi finalmente publicada.
Aqui, o “que” exerce outra função. Ele não é conjunção integrante; na verdade, equivale ao pronome relativo “da qual”:
A decisão da qual te falei ontem foi publicada.
Note que, nesse caso, o “que” retoma claramente o substantivo “decisão” e possui função sintática dentro da oração subordinada, pois integra o sentido de “falei da decisão”.
Por essa razão, estamos diante de uma oração subordinada adjetiva restritiva, e não de uma substantiva.
Para facilitar:
– Se o “que” não retoma um substantivo e apenas introduz uma ideia → é conjunção integrante → oração substantiva.
– Se o “que” retoma um substantivo anterior e pode ser substituído por “o qual”, “a qual”, “do qual”, etc. → é pronome relativo → oração adjetiva.
Essa distinção é fundamental para evitar erros em análise sintática, principalmente porque as duas estruturas aparecem com frequência em provas de concurso e exigem uma leitura atenta.
Quando observamos se o “que” tem ou não função dentro da oração, a classificação fica clara e não há risco de confusão.
2) Nem sempre é possível usar a oração subordinada adjetiva restritiva
Outra observação importante sobre as orações subordinadas adjetivas restritivas é que nem sempre é possível usá-las, porque há situações em que o próprio sentido impede qualquer possibilidade de restrição.
Isso ocorre quando o termo antecedente é um ser único, isto é, algo que não pode ser dividido em subconjuntos. Se não existe um conjunto do qual se possa separar uma parte, então não há como restringir.
Veja um exemplo:
– A escritora Clarice Lispector que revolucionou a literatura brasileira é amplamente estudada.
Perceba que essa frase soa incorreta. Por quê? Porque “Clarice Lispector” é um ser único, exclusivo. Não há várias Clarices Lispector entre as quais possamos escolher apenas a que “revolucionou a literatura brasileira”.
Como é impossível restringir um referente único, o uso de oração restritiva (sem vírgulas) não faz sentido. Nesses casos, a função da oração não é restringir, mas explicar, motivo pelo qual deve aparecer entre vírgulas, travessões ou parênteses. Assim, as formas corretas são:
– A escritora Clarice Lispector, que revolucionou a literatura brasileira, é amplamente estudada.
– A escritora Clarice Lispector – que revolucionou a literatura brasileira – é amplamente estudada.
– A escritora Clarice Lispector (que revolucionou a literatura brasileira) é amplamente estudada.
Agora observe outro exemplo com um ente único:
– A Lua, que influencia as marés, é objeto de inúmeros estudos.
Seria possível retirar as vírgulas e transformar essa oração em restritiva? Não.
Não existe “a Lua 1”, “a Lua 2” ou “uma das luas chamadas Lua”. Estamos falando de um único astro, portanto a informação não pode ser limitada — apenas explicada.
Para reforçar o entendimento, veja perguntas fundamentais que resolvem esse tipo de caso:
- “É possível restringir esse ser?”
- “Existe mais de um referente idêntico que permita delimitação?”
Se a resposta for não, a oração só pode ser explicativa.
No entanto, há uma exceção importante:
“torna-se possível restringir um ser único quando o contexto introduz uma informação contrastante, permitindo comparar versões diferentes desse mesmo referente”.
Veja um exemplo:
– A escritora Clarice Lispector que conheci nos primeiros anos da faculdade era bem diferente da Clarice que depois se tornou famosa.
Aqui, mesmo sendo um ser único, o contexto cria duas “faces” ou dois momentos distintos da mesma pessoa. Assim, faz sentido falar da “Clarice que conheci na faculdade”, em contraste com outra “Clarice”.
Mais um exemplo:
– A Lua que observamos hoje não é a mesma Lua que os povos antigos descreviam em seus mitos.
Perceba que, nesse caso, surge um contraste temporal: a Lua de hoje x a Lua vista pelos povos antigos. Isso cria artificialmente um conjunto com diferentes percepções, permitindo a restrição.
Em resumo:
– Ser único → não se restringe → oração explicativa.
– Só pode haver oração restritiva com ser único quando o contexto cria contraste, dividindo esse referente em “versões”.
2.2 As orações subordinadas adjetivas explicativas
As orações subordinadas adjetivas explicativas têm a função de acrescentar uma informação extra, um comentário ou uma característica adicional sobre um termo já determinado.
Elas não selecionam uma parte de um conjunto, como fazem as restritivas; ao contrário, partem do pressuposto de que o termo já está plenamente identificado e apenas recebem uma observação complementar.
Por isso, essas orações sempre aparecem isoladas por pontuação — normalmente vírgulas, mas podem também surgir entre travessões ou parênteses — marcando esse caráter explicativo e não seletivo.
Veja o primeiro exemplo:
– Os funcionários, que concluíram o treinamento, receberam um bônus especial.
Agora, diferentemente do caso restritivo, não estamos falando de apenas alguns funcionários.
Com o uso das vírgulas, entendemos que todos os funcionários concluíram o treinamento; por isso, todos receberam o bônus.
A oração entre vírgulas funciona como um comentário adicional, que apenas explica algo já verdadeiro para todo o grupo.
Observe outro caso:
– Comprei o celular – que estava em promoção – depois de muita pesquisa.
Aqui, o termo “celular” já está definido: trata-se de um único item específico que a pessoa comprou.
A informação “que estava em promoção” não seleciona um celular entre vários; apenas explica uma característica desse celular já determinado. O uso dos travessões evidencia esse caráter explicativo.
Mais um exemplo:
– As crianças (que moram no interior) chegaram cedo ao evento.
Agora, com o uso dos parênteses, o sentido muda completamente em relação ao caso restritivo.
Em vez de indicar “somente as crianças que moram no interior”, a frase indica que todas as crianças em questão moram no interior e que isso é apenas um comentário adicional. A informação entre parênteses não limita o grupo — apenas o descreve.
Perceba que, em todas essas situações, a pontuação muda o sentido de forma significativa. Ao incluir vírgulas, travessões ou parênteses, a oração perde o caráter de seleção e passa a apenas explicar algo sobre o termo antecedente.
2.3 Como diferenciar uma oração subordinada adjetiva restritiva de outra explicativa
Uma forma rápida e eficiente de distinguir uma oração subordinada adjetiva restritiva de uma oração subordinada adjetiva explicativa é observar a pontuação e o efeito de sentido que ela produz.
Esse é o critério mais cobrado em provas e, ao mesmo tempo, o mais objetivo.
Se não há vírgulas: → Restritiva.
A informação limita, seleciona ou recorta apenas uma parte de um conjunto. Basta lembrar:
Se há vírgulas (ou travessões, ou parênteses): → Explicativa.
A informação não seleciona nada; ela apenas comenta, explica ou acrescenta uma característica extra sobre um termo que já está totalmente definido. Basta lembrar:
Para usar em prova:
Regra de ouro → “Vírgula restringe ou explica?”
- Se ao colocar vírgulas a frase passar a incluir todo o conjunto, é explicativa.
- Se ao retirar vírgulas a frase passar a incluir só parte do conjunto, é restritiva.
Outro ponto fundamental para o aluno:
Porém, essa troca muda completamente o sentido da frase.
Veja um exemplo simples:
– Os alunos que estudaram passaram. (restritiva)
Só alguns alunos estudaram; só esses passaram.
– Os alunos, que estudaram, passaram. (explicativa)
Agora, todos os alunos estudaram; por isso, todos passaram.
Ou seja: mesma estrutura → mesma oração → pontuação diferente → sentido totalmente alterado.
É isso que as bancas gostam de cobrar: perceber que a pontuação não é decorativa — ela muda a interpretação da frase.
Portanto, a dica final e infalível para provas é:
- Se a oração seleciona parte do grupo → restritiva.
- Se comenta algo verdadeiro para todo o grupo → explicativa.
- E basta observar a vírgula para detectar isso.
